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 Ionesco: diálogos sem sentido e alegria anárquica
"Uma coisa eu não entendo: por que eles sempre dão nas colunas sociais de jornais a idade dos que já morreram e nunca dos que acabaram de nascer?", consta em um trecho de La Cantrice chauve (A Cantora Careca), até hoje uma das peças mais encenadas do dramaturgo francês Eugène Ionesco.
A peça trata do puro nonsense, que no palco resulta em risadas garantidas. Mas uma inocente piada torna-se a chave para um universo literário. Para o poeta dos olhos bondosos, a idade sempre foi relativa, embora sua infância estivesse sempre presente.
Infância
Ionesco lembra que, quando tinha três anos, queria ser vendedor de castanhas. Aos três anos e meio, queria ser oficial do Exército e, aos quatro anos, médico. "Mas, na verdade, só podia e queria fazer literatura. Nenhum gênero especial… só literatura", dizia o dramaturgo.
O desejo profissional do pequeno Eugène se realizou depois de um longo caminho. Nascido em Slatina, na Romênia, em 1909, sua família mudou várias vezes de endereço e também de país. Seu pai advogado e funcionário público, queria que o filho se tornasse algo "decente".
default 'A Cantora Careca' na montagem de Jean-Luc Lagarce
Depois do divórcio dos pais, sua mãe assumiu a educação do jovem, permitindo que ele mais tarde estudasse Filosofia, Francês e Literatura na Universidade de Bucareste. Em meados da década de 1940, Ionesco mudou-se definitivamente para Paris, onde descobriu cedo seu amor pelo teatro.
A paixão pelo teatro
Quando tinha apenas quatro anos, o pequeno Eugène fora a um teatro de fantoches acompanhado da mãe. Durante a peça, todos à sua volta davam risada, menos ele. A mãe pensou que o filho estava entediado e quis ir embora, mas era justamente o contrário. "Eu não estava de forma alguma entediado. Eu estava absolutamente fascinado, enfeitiçado… entusiasmado!", contou mais tarde o dramaturgo.
O teatro se tornou uma obsessão pela qual Ionesco acabou sacrificando os estudos e que nunca mais o deixaria em paz. Nos anos de 1950, escreveu suas primeiras peças, inicialmente em romeno, a língua de seu pai, depois em francês.
À Cantora Careca, uma espécie de absurdo teatro de fantoches para adultos, seguiu La Leçon (A Lição), uma paródia drástica e cômica sobre as consequências mortíferas de convenções pedagógicas e linguísticas, na qual uma professora de reforço escolar assassina sua aluna no final.
No entanto, Ionesco tornou-se conhecido – inclusive internacionalmente – somente dez anos depois com Rhinocéros (Os Rinocerontes), uma fábula de animais sobre o poder do mal e o oportunismo.
O feitiço do nonsense
Comum a todos os dramas de Ionesco é o caráter de marionete de seus personagens e os diálogos mecânicos e desprovidos de senso através dos quais os personagens não necessariamente se comunicam. Para ele, esta era uma imagem do mundo totalmente sem sentido e esperança.
default 'A Cantora Careca' em encenação de Philip Tiedemann em Berlim
"Acho absurdo existir", dizia o dramaturgo. "Não considero a vida em si absurda. A história não é absurda, ela é lógica, é possível explicá-la. É possível explicar por que as coisas acontecem. O absurdo não está no interior da existência, mas a existência em si me parece inimaginável, impensável. Por que será?", questionava Ionesco.
Um pergunta que nem mesmo suas peças conseguem responder. Enquanto o irlandês Samuel Beckett, outro representante do Teatro do Absurdo, apresentava uma obra pessimista e hermética, as obras de Ionesco não continham uma atmosfera apocalíptica, mas antes uma alegria anárquica. Uma característica que lhe trouxe o desprezo de ideólogos de esquerda nos anos de 1970, mas que até hoje o público sabe apreciar.
Quinze anos após sua morte, Ionesco ainda é de longe o dramaturgo francês mais apreciado. No pequeno Théatre de la Huchette, no Quartier Latin de Paris, suas peças são encenadas ininterruptamente há mais de 50 anos.
Para Nicolas Bataille, ator, diretor e fã de Ionesco desde o começo, isso se deve principalmente ao fato dele não ser um intelectual no sentido depreciativo da palavra, pois para entendê-lo não é preciso quebrar a cabeça..
Autor: Holger Romann (jbn)
Revisão: Rodrigo Rimon


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