Teuda e manteuda
O império da cortesã: as amantes reais e seus poderes quase ilimitados
Por: Renato Drummond Tapioca Neto
A questão do adultério é um fato bastante
conhecido durante quase toda a história ocidental. Em tese, os cônjuges
deveriam ser fieis um a outro, especialmente as esposas, uma vez que
sobre elas repousava a legitimidade dos futuros herdeiros do casal. No
regime monárquico, uma rainha acusada de adultério, por exemplo, era
declarada traidora e, por isso, condena à morte. Por outro lado, era
considerado direito dos reis tomar para si uma, ou várias amantes, visto
que, na maioria dos casos, eles se casavam não por amor, mas sim por
política. Dessa forma, no leito conjugal a lei que ditava o desempenho
dos soberanos era a perpetuação da linhagem, enquanto o amor e o desejo
carnal eles reservavam a outras. Mas quem eram essas poderosas figuras
femininas? Que segredos elas possuíam a ponto manter sobre si mesmas,
embora por um período limitado, o desejo e a atenção dos homens? Muitas
delas, inclusive, chegaram a exercer forte papel político na vida de
seus parceiros, opinando em questões de Estado e distribuindo favores
reais aos seus mais chegados. Destarte, selecionamos aqui a trajetória
de algumas amantes de reis e/ou imperadores que entraram para os arautos
da história, no intuito de exemplificar o que foi dito até agora.

Possível retrato de Maria Bolena, por artista desconhecido.
Um bom exemplo, para início de conversa,
seria a vida de Maria Bolena. A irmã da segunda esposa de Henrique VIII,
Ana Bolena, é uma grande interrogação na história inglesa. Amante de
dois reis, ela se transformou numa representação de ousadia feminina
para o século XVI ao casar-se com o homem de sua escolha, em detrimento
da opinião de seus familiares. De acordo com os rumores da época, Maria,
durante sua temporada na França, se tornou maîtresse do rei
Francisco I, que a teria apelidado de “minha égua inglesa”. Quando
voltou para casa (c. 1520), a moça foi inserida no séquito de Catarina
de Aragão, onde atraiu os olhos de Henrique VIII, que também a tomou por
amante. O relacionamento, contudo, parece que não durou muito, e no
final ela ficou conhecida pelo rótulo de “a grande prostituta”. Após
enviuvar, passou por muitas dificuldades, até encontrar um homem que a
aceitou como esposa. Sua descendência, por sua vez, perdura até os dias
de hoje. Mas apesar de ter sido amante do rei da Inglaterra, a posição
de Maria Bolena não foi oficializada por Henrique, diferentemente de sua
predecessora Bessie Blount, cujo filho foi reconhecido pelo próprio
monarca como um bastardo real.
Ao contrário da Inglaterra, a França do
antigo regime constitui-se num campo muito mais interessante para se
avaliar o poder e a influência de uma amante, cuja posição, se
reconhecida, assimilava-se em muitos aspectos a um cargo político,
denominada maîtresse-en-titre, traduzido como “amante oficial”. Para Benedetta Craveri,
Na França do Quinhentos, soberanas e princesas não são, todavia, as únicas a ocupar a cena. Na sua ausência, ao lado delas e muitas vezes em aberto antagonismo com elas, avançam as rainhas do coração, as poderosíssimas favoritas reais: a duquesa de Étampes e Diana de Poitiers, amantes respectivamente de Francisco I e Henrique II; Gabrielle d’Estrées e Henriette d’Etrangues, destinatárias privilegiadas do amor ardoroso do mui galante Henrique IV (CRAVERI, 2007, p. 18).
O caso de Diana de Poitiers é
extremamente interessante, pois ela foi a primeira grande amante de um
rei da França. Sua figura graciosa eclipsava quase completamente a da
rainha Catarina de Médici. Foi musa de muitos artistas, entre eles
François Clouet, que chegou a pinta-la em um nu artístico. Apesar de
Henrique II ter mantido relações com outras mulheres, era a Diana que
ele devotava completa obediência, para frustração de sua esposa.

Diana de Poitiers, em nu artístico de François Clouet.
Catarina, por sua vez, chegou a acreditar
que sua rival era uma espécie de feiticeira e que lançava mão de
sortilégios para prender a atenção do rei, visto que a influência de
Diane ia muito além do campo afetivo: ela atuava abertamente como um
tipo de conselheira real. Os embaixadores estrangeiros, inclusive,
chegavam a lhe fazer a corte antes mesmo de irem visitar a rainha. Ela
usava as joias da coroa, presidia a inúmeros colóquios políticos e tinha
uma voz bastante ativa no reino, o que era algo raro na França, uma vez
que política, especialmente naquele país, era um assunto de homens. Mas
seu reinado chegou ao fim após a morte de Henrique (1559), quando
Catarina de Médici assumiu todos os poderes da regência e expulsou sua
rival da corte. O poder de uma maîtresse-en-titre emanava
exclusivamente de seu parceiro. Sem ele, o campo de atuação dela passava
a ser bastante limitado. Contudo, Diana acumulou bastante riqueza
durante seu relacionamento com o rei e terminou seus dias como uma das
senhoras mais veneradas de seu tempo, tanto pela beleza quanto por sua
astúcia. Depois dela, as portas estavam abertas para que outras mulheres
seguissem os seus passos e se tornassem tão, ou mesmo mais famosas. É
esse o caso da célebre Françoise Rochechouart-Mortemart, a futura
marquesa de Montespan.
A amante mais famosa de Luís XIV, o “rei
sol”, já serviu de inspiração para vários romances e foi a principal
agente de muitas conspirações na corte. Françoise possuía uma linhagem
nobre que remontava ao século XII, o que a recomendou para o cargo de
dama de companhia da rainha Maria Tereza da Áustria. Foi nesse ambiente,
por volta da década de 1660, que o seu relacionamento com o rei
deslanchou. Naquela época, Luís possuía outra amante oficial, Louise de
La Vallière, que passou a servir como um escudo para encobrir o
relacionamento do rei com a Montespan. Mulher de convicções religiosas,
Louise decidiu que já era tempo de abandonar sua gasta relação com o rei
e redimir seus pecados entrando para um convento. Sua atitude foi muito
admirada pela corte, especialmente pela rainha, que a perdoou pelas
angustias que o relacionamento dela com o rei lhe causaram. Mas se por
um lado Louise abandonava a cena em grande estilo, por outro deixava em
evidência o relacionamento de Luís com Françoise, que por volta de 1674
já não era segredo para mais ninguém.

Louise de La Vallière (esquerda) e Madame de Montespan (direita), amantes do rei Luís XIV.
Até hoje, os famosos banhos de piscina de
Montespan e Luís XIV enchem a imaginação de muitos escritores[1].
Segundo Madame Caylus, o projeto de Françoise era “governar o rei com a
ascendência de sua personalidade, tendo assim a ilusão de ser dona tanto
da sua inclinação como da paixão do monarca. Ela acreditava que sempre o
faria desejar o que ela havia decidido não lhe conceder” (CRAVERI,
2007, p. 204). Infelizmente para a marquesa, seu plano não deu certo,
pois se havia um rei que não aceitava dividir seu poder, esse era Luís
XIV. Apesar de tudo, o relacionamento entre eles durou muito e coincidiu
com a fase mais próspera do reinado do monarca, terminando com uma
série de boatos que ligavam Montespan a vários assassinatos envolvendo o
uso de veneno e poções afrodisíacas para manter a atenção do monarca
sobre si mesma. Assim como suas predecessoras, ela terminou seus dias
gozando de bastante prestígio e repleta de tesouros acumulados ao longo
dos anos de seu relacionamento com rei.
Mas se Luís XIV não dividia seu poder, o
mesmo não se pode dizer de seu neto, Luís XV, que por muito tempo foi
quase uma marionete nas mãos de Jeanne-Antoinette, a célebre marquesa de
Pompadour. De ascendência burguesa e muito “bem feita de corpo”, Jeanne
tinha como objetivo seguir os passos de Madame de Maintenon, última
amante de Luís XIV, e se tornar uma patrona do ensino e das artes, só
que não foi exatamente isso o que aconteceu. Sua ascendência sobre o rei
se tornou tão grande, que logo ela atraiu o ódio da população para o
monarca. Jeanne não tardou em promover os interesses de sua família na
corte e a exercer uma política contraditória aos interesses da nobreza
palaciana. Ela passou a ser uma espécie da porta-voz dos interesses de
Luís e seus aposentos em Versalhes foram descritos como mais próximos de
um gabinete político do que qualquer outra coisa. Ao lado de seu amigo,
o duque de Choiseul, ela foi uma das mentes por trás do projeto de
aliança franco-austríaca, que culminou, anos mais tarde, com o casamento
do delfim Luís Augusto com a arquiduquesa Maria Antonieta.

Madame du Barry (esquerda) e Madame de Pompadour (direita), amantes do rei Luís XV.
Diferentemente de suas antecessoras no posto de maîtresse-en-titre,
o domínio da marquesa de Pompadour sob Luís XV se dera muito mais no
campo psicológico do que no erótico. Após quatro anos de relacionamento,
Jeanne apresentou alguns problemas ginecológicos e por isso deixou de
compartilhar o mesmo leito que o rei, conseguindo conservar o carinho do
soberano e sua posição de influência até o fim de seus dias. Com a
morte de Pompadour, o cargo de amante oficial estava livre para ser
ocupado por outra pessoa, e essa seria ninguém menos que Jeanne Bécu, a
futura Madame du Barry. Até agora, conforme observamos o posto de amante
era geralmente ocupado por mulheres bem nascidas ou com alguma conexão
com a nobreza. Pompadour, com suas origens burguesas, quebrou essa
linha. Mas até então nenhuma prostituta havia sequer passado perto de
exercer a função maîtresse. Du Barry foi a grande exceção.
Apesar de sua longa experiência sexual, Luís XV jamais teve contato com
uma verdadeira cortesã, capaz de lhe proporcionar um prazer que ele
nunca tivera com suas outras amantes.
Contudo, devido às suas baixas origens
sociais, du Barry precisava de um título nobiliárquico para ser aceita
em Versalhes, que logo foi arrumado por seu real amante através de um
casamento de fachada. Nem é preciso mencionar que a nobreza se sentiu
insultada por ver uma ex-prostitura caminhando entre os corredores do
palácio, coberta de joias e roupas caras. Tão logo Jeanne (ou Angie,
como era conhecida), começou a interferir na política, despertou o ódio
da população, principalmente por ela ser uma das responsáveis pela
demissão do ministro Choiseul. Após a morte de Luís XV (1774), a
favorita foi banida da corte, devido à antipatia que a nova rainha,
Maria Antonieta, nutria por ela. Por mais de 20 anos após a morte do
rei, Angie permaneceu como uma mulher rica e manteve uma espécie de
segunda corte em suas residências, até ser acusada de traição em 1793 e
decapitada pela guilhotina. Assim terminou a vida da última grande
amante da monarquia francesa. Mas o cargo de maîtresse-en-titre
sobreviveu, viajando pelos mares e vindo parar no Brasil de 1822,
quando o regime monárquico independente dava seus primeiros passos no
país.

Domitila de Castro, marquesa de Santos.
Aqui, a maior referência que temos no
cargo de amante oficial é Domitila de Castro Canto e Melo, marquesa de
Santos. Seu caso com o Imperador D. Pedro I escandalizou toda a Europa e
até hoje é alvo de estudo entre muitos historiadores e biógrafos. As
origens do relacionamento entre ambos se misturam com o próprio processo
de Independência do Brasil, documentadas por uma série de cartas
trocadas pelos amantes ao longo dos sete anos em que permaneceram
juntos. Domitila não era uma grande beldade ou possuidora de muita
inteligência, mas sabia encantar os homens por seu espírito livre e
desinibido. Graças ao seu caso com o imperador, ela e sua família
receberam vários títulos e posses. A própria Domitila fora elevada ao
título de marquesa, da mesma forma que Luís XIV e Luís XV fizeram com
suas amantes. Após a morte da Imperatriz D. Leopoldina (1826), a corte
brasileira temia que o Imperador fizesse da amante sua segunda esposa,
como quase aconteceu com o rei Henrique IV da França e sua amante
Gabrielle d’Estrées, mais de 200 anos antes. Porém, ciente da
impopularidade que seu relacionamento com Domitila atraiu, D. Pedro a
baniu para São Paulo em 1829, deixando o caminho livre para a vinda de
sua nova consorte, a Imperatriz D. Amélia de Leuchtenberg.
Amantes e rainhas quase sempre mantiveram
uma relação tensa: as primeiras por conquistarem os corações dos
soberanos e as segundas por não conseguirem destruir esse afeto. Nos
casos até aqui analisados, poucas foram às soberanas que souberam
afastar a presença de suas rivais, como aconteceu com Catarina de
Médici, que expulsou da corte Diana de Poitiers após a morte de Henrique
II; no caso de Maria Bolena, tanto Francisco I da França quanto
Henrique VIII da Inglaterra se cansou fácil dela, deixando-a com uma
reputação maculada depois do fim do relacionamento. Sendo assim, para
uma amante assumir a plenitude de poderes ela precisava de grande
astúcia e contar com o caráter maleável dos reis. Nesse aspecto, a
grande vitoriaza foi a marquesa de Pompadour, que mesmo tendo parado de
fazer sexo com Luís XV, conseguiu manter sua influência sobre ele.
Estudar a trajetória de tais senhoras é muito mais do que revelar
segredos de alcova ou fazer julgamento de suas atitudes. Antes disso. É
por meio de suas vidas que se pode enxergar como as mulheres souberam
exercer poder e influência por trás da falsa superioridade masculina, da
qual a história ainda se encontra repleta.
Referências Bibliográficas:
CRAVERI, Benedetta. Amantes e rainhas: o
poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia
das Letras, 2007.
FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.
LOADES, David. As
Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII).
Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.
PRIORE, Mary Del. A carne e o sangue: A
imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a marquesa de Santos. –
Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
WEIR, Alison. Mary Boleyn: the mistress of kings. – New York: Ballantine Books, 2011.
[1] A própria historiadora Mary Del
Priore chegou a comparar essa prática do rei sol com a de D. Pedro I e a
marquesa de Santos (chamada por alguns de a “Pompadour dos trópicos”).
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